O dono viaja e o bicho fica feliz

Novos serviços põem em contato quem viaja e precisa de “babá” para seu animal e quem tem tempo, espaço e carinho a oferecer.

No século XIX, o pastor inglês John Russell, um entusiasta da caça esportiva, perdia uma competição após a outra. Seus cães eram agressivos demais e difíceis de controlar nas caçadas a raposas. Russell passou a cruzar raças para obter filhotes ágeis, fortes e compactos, mas pouco agressivos. Chegou ao jack russell terrier, uma raça inteligente, agitada e, hoje, popular a ponto de estrelar filmes de cinema, como O artista. Bichos de estimação são assim: o tempo todo criam necessidades novas. Atrás das necessidades, vêm soluções criativas e, às vezes, novos negócios. Hoje, o problema de quem tem bicho não é caçar raposas, e sim como sair de casa por alguns dias. É difícil achar quem cuide de cão, gato, passarinho, ou o bicho que seja, durante viagens dos donos. A questão inspirou o publicitário e administrador Eduardo Baer, de 30 anos. No início de 2014, ao voltar de uma temporada de estudo nos Estados Unidos, ele decidiu que teria um animal de estimação. A negociação com a mulher emperrou num ponto importante: as viagens do casal. “Ter um cachorro seria incompatível com nosso estilo de vida”, diz. Por isso, criou uma solução, na forma de um negócio.

Baer fundou em agosto o Dog Hero, um serviço de hospedagens de animais de estimação. Ele já criara o iFood, um site de entregas em domicílio. Lembrou os serviços de hospedagens de animais dos Estados Unidos e começou a conversar com potenciais clientes. “Vi que não era uma necessidade só minha, mas de muitos donos de animais que viajam”, diz. Baer convidou como sócio um ex-colega de estudo nos Estados Unidos, Fernando Gadotti. Montaram a empresa em quatro meses.

No Dog Hero, o interessado em hospedar bichos de estimação se inscreve no site, responde a um questionário e informa quanto pretende cobrar pela diária. A equipe avalia o perfil do candidato e verifica as informações. Se o interessado for aprovado, pode começar a receber pedidos pela internet. O site pretende organizar encontros regulares dos cuidadores, com palestras e treinamentos. “Recebemos 1.800 inscrições de candidatos a anfitrião e, por enquanto, credenciamos 180”, afirma Baer. A prioridade hoje é o eixo Rio-São Paulo. Depois, Baer pretende expandir o negócio.

A empresária Stella Susskind, de São Paulo, tornou-se hospedeira cadastrada no Dog Hero há três meses. Ela tem três cães e, desde setembro, hospedou outros seis. “Meu filho, de 10 anos, ama cachorro. Ele se diverte dizendo que a raça do cão dele varia a cada fim de semana”, diz. Com a viagem de fim de ano, seus cães passaram de anfitriões a hóspedes. “Acho mais acolhedor do que hotéis para cães”, afirma.

Uma concorrente é a PetHub, com mais de 4 mil usuários cadastrados. Ela recebeu recentemente R$ 600 mil em investimento. O preço da diária de hospedagem varia, de acordo com as necessidades do animal. Tende a ficar entre R$ 25 e R$ 100. A maioria dos sites oferece uma ferramenta de pagamento on-line, com cartão de crédito ou boleto. Dog Hero e PetHub aproveitam o encontro de duas grandes tendências. Uma é o crescente grau de exigência dos donos de bichos de estimação. A outra é a economia do compartilhamento, em que indivíduos e famílias transformam em dinheiro algo que já têm regularmente à disposição – no caso, conhecimento, condições e carinho para cuidar temporariamente de um animal. Não é um fenômeno brasileiro. A americana Dog Vacay, com o mesmo modelo de negócio, atua em mais de 3 mil cidades e oferece 20 mil anfitriões cadastrados. Em novembro, recebeu um investimento de US$ 25 milhões.

Quem tem bicho de estimação pode receber um serviço equivalente de outra forma. A PetRoomie, além de oferecer hospedagem, pode enviar um cuidador à casa do animal. O interessado em prestar o serviço se propõe a passar algumas horas com o bicho, brincar, passear e dar comida. Entre outros serviços similares de “babá”, está o MyPet’s Nanny, que oferece um curso formador de cuidador de bichos de estimação.

Quem recorre a esses serviços tem de adotar cuidados. Alguns dos sites selecionam os cuidadores. Outros, como o PetRoomie, não fazem essa avaliação. Publicam notas e comentários de quem já testou o cuidador. Vale também verificar se os serviços cobrem gastos com emergência. No Dog Hero, a hospedagem pode ser acompanhada por um “seguro” de R$ 5 mil, para gastos urgentes com veterinário. Por fim, o ideal é conhecer antes o hospedeiro ou cuidador e definir como será a comunicação durante o período de ausência do dono. Pedir fotos e vídeos é um bom jeito de matar a saudade e acompanhar o estado de ânimo do bicho.

Fonte: Revista Época

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