Atenção ao medo do seu cão

Saber quando um cão está feliz é fácil, já detectar o medo é muito mais difícil e, não raro, as pessoas entendem equivocadamente os sinais apresentados pelo cachorro – o que pode acabar em acidentes, como mordidas graves. O medo, aliás, é um dos principais fatores que concorrem para que o animal ataque para se defender. A psicóloga Michele Wan, especialista em comportamento animal, coordenou uma pesquisa com o objetivo de examinar de que forma a experiência com cachorros influi na percepção das pessoas a respeito de emoções caninas. No estudo, publicado no periódico científico PLoS ONE, voluntários foram reunidos em três grupos: um formado por pessoas que tinham pouca ou nenhuma experiência com cães, outro por voluntários que haviam vivido com um cachorro em algum momento, e um terceiro de pessoas que trabalhavam com cães havia mais ou menos uma década.

Todos os participantes do experimento assistiram a breves videoclipes de cães. Em seguida, categorizaram o estado emocional dos animais e apontaram quais partes do corpo dos cachorros foram sugestivas para suas avaliações. Como os vídeos não tinham sons, os participantes tiveram de se basear no comportamento do animal para classificar um cão como temeroso ou feliz, por exemplo. No entanto, esses não eram vídeos quaisquer. Eles tinham sido previamente triados por especialistas em comportamento canino, cujo aprendizado ou experiência profissional os havia treinado para fazer avaliações de comportamento animal baseadas em achados científicos.

Cães felizes provaram ser os mais fáceis de identificar. Mesmo pessoas com pouca experiência canina podiam ver um cão se esbaldar na neve ou rolar alegremente sobre suas costas – e descrever esse animal como feliz.

Mas com o medo foi diferente. Os participantes do estudo que lidavam profissionalmente com cães se saíram melhor na identificação de medo, tanto em comparação a donos de cachorros como a pessoas pouco experientes com esses animais. “Foi indiferente se os profissionais eram relativamente recém-chegados ao campo, tinham trabalhado com cães havia menos de dez anos, ou se eram profissionais de longa data”, observa Michele Wan. “Eles tiveram a mesma competência em identificar o medo.”

Uma das razões para os profissionais se saírem melhor pode ser o fato de observarem mais partes corporais dos cães em busca de sinais, enquanto leigos são menos propensos a sintonizar com traços faciais dos cães.

Felizmente, é possível aprender como notar e interpretar comportamentos caninos sutis. Mesmo se você viver com o cão mais dócil e despreocupadamente feliz do planeta, o medo ainda deveria estar no seu radar, em especial se ele nunca interage com outros cães. Reconhecer esse sentimento em outro cão pode ajudar a entender como dar espaço a ele; e, a partir daí, pode-se agir conforme a situação.

Mas qual seria o “aspecto” do medo? Uma variedade de posturas corporais ajuda a identificá-lo. É mais fácil reconhecer esse sentimento quando os cães se encolhem, se abaixam ou voltam as orelhas para trás e mantêm a cauda em uma posição baixa. Muitas vezes, porém, eles expressam que estão amedrontados e outras maneiras, ao tremer, bocejar, salivar, ficar imóvel, respirar de maneira ofegante, levantar as patas. Alguns até mesmo abanam o rabo, o que facilmente confunde as pessoas e as faz se aproximar – e às vezes ser mordidas.

É possível ajudar cães a serem menos medrosos. Identificar comportamentos ligados ao temor é o primeiro passo; identificar e modificar a percepção de estímulos indutores de medo em um animal também é importante. Imagine um cachorro que teme pessoas estranhas chegando à sua casa. Mas se nessas ocasiões ele ganhar pedacinhos de seu petisco favorito, a impressão de ameaça será gradualmente atenuada e até extinta. Por meio desse contra condicionamento, visitantes gradualmente ganham um novo significado, quando o cão associa a presença de pessoas a uma coisa boa. À medida que as emoções do cão mudam, seu comportamento também se transforma: posturas amedrontadas desaparecem para revelar um cachorro que antecipa algo bom.

Fonte: MenteCérebro

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